O difícil papel de ser a 'outra'
Data de Publicação: 3 de setembro de 2006
Redação Online - Últimas Notícias
PlantãoQuase toda a mulher sonha na infância com o príncipe encantado que, com o seu cavalo branco, vai tirar-lhe das garras do dragão e levá-la ao altar para dali viverem um conto de fadas. Porém, quando cresce, se o tal príncipe é comprometido e se pintar um envolvimento, acaba sendo a 'outra' na vida do rapaz. Nesta situação, o desgaste emocional dos mais fortes é inevitável, pois viverá um sentimento permeado de incertezas e culpas.
A estudante de arquitetura M., 26 terminou há dois meses um relacionamento de dois anos com um homem 17 anos mais velho e casado. M. não titubeia em qualificar o momento vivido como um 'inferno'. 'Hoje, refletindo, tenho a sensação de que deixei de experimentar muita coisa na vida por conta dessa loucura. Sofri muito além do necessário, me expus por algo que, agora, estou certa de que não valia a pena', considera. 'Fomos apresentados numa recepção, friamente. No mês seguinte, nos reencontramos em outra festa, e depois fomos para a cama. Tive um pouco de culpa, mas considerei, a princípio, tudo apenas aventura de uma noite. Mas essa noite durou muito e foi bem escura', lembra.
O assédio do homem casado foi implacável e M. sucumbiu. 'Todas as pessoas que sabiam o que eu estava vivendo gritavam que eu pulasse fora. Mas fiquei muito envolvida, alguma coisa na relação me atraía muito e, sobretudo, ele. Era muito bonito, sedutor, sabia levar qualquer mulher', conta. Foram dois anos sem nenhuma espécie de estabilidade emocional, brigas, desencontros e reencontros, tensão. Preço muito caro, segundo ela, pelo que viveu.
'Quando eu comecei a precisar conviver com a mulher dele na faculdade, a coisa se tornou insuportável. Eu não conseguia olhar na cara dela. Eu simplesmente passei a não atender mais aos chamados dele. Foi assim que a coisa terminou, sem conversa, sem resolução. Mas acho que precisava ser assim, pela raiz mesmo', revela, firme e aliviada.
'Um relacionamento amoroso necessita de um mínimo de segurança para acontecer satisfatoriamente', define a produtora cultural V., 31. Ela foi 'a outra' de um colega, casado há cinco anos, pai de uma família. 'Ele é muito bem sucedido na carreira, tem um filho de cinco anos, uma mulher linda. Eu confesso também a minha imprudência de achar que tudo seria uma aventura, que eu não me envolveria. Eu realmente acreditava nisso, mas não foi forte e deixei a coisa ir adiante', revela. V.
O homem casado em questão, sem nenhum remorso ou culpa, atendia a telefonemas da mulher ao seu lado na cama do motel e, com isso, acabava expondo a 'oficial' a um vexame que desconfortava a própria V. 'Ele acabou transferindo a culpa para mim. Com o tempo, acabei ficando muito carente e aquela instabilidade toda me deixava sem nenhuma perspectiva. Me sentia constantemente desrespeitada e com vontade de sair daquilo. Acabou sendo um processo demorado porque me vi realmente apaixonada. Mas acho que finalmente estou me livrando disso', assume.
Mas há também aquelas que caíram nas garras de alianças e, mesmo com o sofrimento inerente à experiência, descobriram vantagens em ser a outra, como a tradutora S., 36, divorciada e mãe de uma menina de 12. Conheceu o caso num coquetel na casa de uma prima e já de cara sacou suas intenções. 'Foram dois anos de encontros. Não tinha a mínima curiosidade sobre a vida familiar dele. Simplesmente aproveito o melhor, o carinho, os conselhos, a amizade e tudo mais. Tenho vida própria, não me apaixonei. O relacionamento era esporádico, o espaço que ele preenchia era esse. Não estava procurando nele um namorado, um companheiro. Aí, teria sido infeliz', acredita S.
Aventura de riscosA psicoterapeuta Margareth Labate acredita que a confusão cultural que a discriminação feminina trouxe para as relações entre homens e mulheres seja uma das chaves da conturbação dessa experiência.
'A identificação entre desejo sexual com amor e paixão dificulta extremamente a compreensão do que um relacionamento com um homem casado possa oferecer. Aí o jogo entre expectativa e frustração pode ser muito forte. Sem generalizar, muitas vezes o que um homem busca fora do relacionamento oficial é sexo ou aventuras emocionais, mesmo que muitas vezes digam o contrário. O homem adúltero não acredita que o sexo casual seja uma ameaça à sua relação estável e, muito dificilmente, está disposto a abrir mão da estrutura familiar montada por ele', explica.
Envolver-se com ele é, portanto, uma empreitada repleta de riscos e que demanda muita responsabilidade emocional. 'Para ter algum saldo positivo, ela precisa ser levada de forma leve e indolor, sem grandes vínculos', diz.
Afinal, nada mais desastroso do que perseguição de mulher, gravidez indesejada, filhos magoados. 'São riscos que não devem ser esquecidos. É bom refletir muito bem antes de entrar numa aventura dessas', encerra.
Relação proibidaA psicóloga Nazaré Tavares explica que muitas mulheres se relacionam com homens comprometidos por pura falta de opção e por não desejarem um relacionamento assumido e franco, preferindo se esconder numa relação proibida. 'Assim, elas não precisam assumir um compromisso amoroso verdadeiro por baixa auto-estima e sem receber o mínimo necessário de atenção. Muitas também mantêm a esperança de um dia serem assumidas por esses homens e reconhecidas como a mulher ideal para eles', completa a psicóloga.
Segundo Nazaré Tavares, em outros casos essas mulheres já foram vítimas de traição e por isso buscam uma compensação em forma de vingança contra aquelas que ainda permanecem casadas. 'Elas pensam que não devem mais ser leais com ninguém e se sentem imaturas ou com baixa auto-estima para escolherem um homem disponível afetivamente para elas', explica.
A psicóloga ensina que para fugir da posição de 'a outra', o melhor é aprender a separar carência afetiva, e algumas vezes até financeira, de um sentimento amoroso mais genuíno. 'Claro que pode haver um amor verdadeiro por um homem casado, mas é o tipo de relação que violenta de forma contínua o emocional de uma mulher', diz.
GUIAS DE SOBREVIVÊNCIAO tratamento para quem não consegue sair dessa situação de ser a outra em uma relação é procurar um psicoterapeuta, orienta a psicóloga Nazaré Tavares, que indica a leitura de alguns livros de auto-ajuda que já se tornaram best-sellers no mundo:
'O complexo de Cinderela' (Editora Melhoramentos, 2002, 222 páginas, R$ 34,11), da jornalista Collete Dowling - Mostra a importância de se quebrar o mito do príncipe encantado que toda mulher aprendeu a esperar ao longo de um aprendizado iniciado na infância. Ensina ainda a mulher a buscar sua independência financeira como mais uma arma no aperfeiçoamento da auto-estima e a buscar um companheiro real e disponível emocionalmente.
'Pare de amar errado' (Editora Matrix, 2003, 200 páginas, R$ 28), da jornalista Rejane Freitas - Guia de sobrevivência da mulher nos relacionamentos'. Ensina como um relacionamento errado pode alterar profundamente o emocional de uma mulher de forma contínua, além de mostrar a importância de se saber visualizar o próprio poder nos relacionamentos, tirando o homem do foco de tudo.
Fonte:http://www.orm.com.br/plantao/noticia/default.asp?id_noticia=188597&modulo=827
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