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Por que um guia de sobrevivência só para mulheres?

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Data de Publicação: 6 de junho de 2004
Entrevista

Por: Aderlei de Souza
Repórter


Por quê um guia de sobrevivência só para mulheres?

Rejane - O livro nasceu da minha experiência afetiva e de amigas e conhecidas, além das muitas leituras que venho fazendo ao longo dos anos sobre o amor. Abordo o universo feminino no amor, com ênfase em erros que a mulher costuma cometer ao se relacionar com o homem, principalmente quando ama demais. É bem opinativo, e leva as mulheres a fazerem uma reflexão profunda sobre a necessidade de saberem ficar e sair de relacionamentos com mais leveza e menos sofrimento.

Homens não precisam?

Rejane – precisam sim, homens e mulheres querem se entender; compreender as diferenças, vencer as transformações comportamentais, diminuir as distâncias. Mas o meu interesse maior foi focalizar a necessidade da mulher que ama demais de se fortalecer emocionalmente ao entrar na relação afetiva. De viver bem a relação. De saber sair também quando o saldo lhe fica negativo. De desenvolver um forte senso de sobrevivência e autopreservação. De sair o mais inteira possível. Mas também existem homens que amam demais.

As mulheres tendem a agir mais com o coração (emoção) do que com a cabeça (razão)?

Rejane – Ela é mesmo mais emotiva e sensível do que o homem. Talvez por isso seja tão observadora e detalhista; atenta aos lapsos de manifestação de afeto do parceiro. Os hormônios femininos influenciam muito esse lado emocional da mulher. A maior parte da sua vida, dos seus desejos e sonhos passa pela emoção, pelas coisas do coração. Aliás, no livro eu falo bastante sobre a necessidade da mulher ser mais racional, mais prática e decidida nas coisas do amor; tomar mais decisões fazer escolhas, ser mais atenta às condutas masculinas de forma a ampliar o seu senso de realidade e observação sobre a relação. Por causa da sua emotividade, muitas vezes a frustração amorosa causa grandes estragos na estrutura de vida dela, deixando cicatrizes profundas na alma.

Isso explica as atitudes “desesperadoras” de algumas delas?

Rejane - Também, mas não só. Tem muito de cultural aí, de criação familiar, de reprodução de papéis na sociedade. A mulher não precisa ser uma perdedora no amor, se ver como vítima de relações sofridas, condenadas a chorar por amores infelizes. A mulher não precisa rodar esse script sempre, encenar a mesma peça, produzir esse drama. A forma como a mulher pensar seus papéis no mundo, que papéis quer desempenhar na relação, sobre o que quer receber na vida a dois e com que tipo de homem quer criar vínculos afetivos, vão definir em muito a qualidade da sua vida amorosa. A mulher tem de resolver suas próprias carências afetivas, preencher seus vazios existenciais e diminuir a responsabilidade emocional que joga sobre o homem. O amor não é para fazer sofrer, se faz, então há correspondência de sentimentos e propósitos entre o casal.

O que leva a mulher a se envolver tanto com homens comprometidos?

Rejane – Isso é uma cena bem real na atualidade. Tem milhares de mulheres sozinhas. Só aqui na minha cidade [São Luís] há um contingente a mais de quase 70 mil mulheres, fenômeno que deve se repetir em outras cidades brasileiras. Mesmo com esse excedente, ainda assim as mulheres querem encontrar; escolher homens interessantes, que correspondam aos seus desejos e se aproximem do seu ideal de amor. Querem namorar; receber amor, carinho e afeto, muitas vezes até mesmo o sustento financeiro. É meio que um arranjo afetivo, um tampão, um arranjo social, fruto das dificuldades e desencontros pelos quais passa a relação homem x mulher na sociedade.

Por que uma mulher casada “aceita” conviver com uma situação onde o marido tem uma amante estável?

Rejane – É uma decisão muito íntima, com certeza essa mulher deve estar mergulhada no outro, dependente dessa relação doentia. Quando chega a esse ponto ela já não tem quase poder e auto-estima. Já não sabe nem como sair dessa relação. Medo de enfrentar a vida, vontade de se proteger do mundo, ficar no conforto conhecido. Nessa situação, há mil motivos para sair, e outros mil para ficar. Um deles é o medo de se ver só no ponto em que está na vida, tendo de recomeçar. É uma decisão muito pessoal. Contudo, mesmo convivendo com a traição, a infidelidade, a relação extra-conjugal estável do parceiro, a mulher pode começar a trabalhar o seu “sistema imunológico”, a desenvolver a capacidade de sobreviver afetivamente, ficando mais fortalecida para entender as suas próprias necessidades e decisões amorosas, que acabam afetando todos os segmentos da sua vida.

A solidão “assusta” mais os homens ou as mulheres?

Rejane – A solidão assusta todo ser humano. Não queremos ser sós, não sabemos ser sós. Gostamos do calor, do colo, do toque. Nascemos em um ambiente quentinho e acolhedor. Queremos perpetuar esta situação e procurarmos nos parceiros afetivos e, na ausência destes, nos amigos, o preenchimento deste afeto. Temos necessidades esporádicas de proteção e segurança. Temos medos irracionais. Certas horas, a vida fica pesada de levarmos sozinhos. Nos grandes centros é mais difícil ainda, a solidão urbana é hoje um fenômeno social. Mas pode ser também uma opção de viver que não implica necessariamente em que seja ruim. Vai depender muito de como a pessoa se coloca na sua realidade.

Um jeito de minimizar os efeitos da solidão, para homens e mulheres, é distribuir mais o amor que concentram tanto na busca do parceiro afetivo, do parceiro sexual. Amar a vida em si, a família, os amigos, ajudar as pessoas em trabalhos voluntários, criar animais de estimação, procurar o equilíbrio de viver num contado mais estreito com a Natureza, cultivar a fé e a capacidade de encantar-se. Viver de um modo positivo a solidão ajuda muito a experimentar o equilíbrio e a leveza a dois.

A situação das mulheres, atualmente, se dá por culpa delas mesmas? Seria uma opção delas?

Rejane - As relações afetivas têm atravessado crises de identidade, assim como as relações sociais. O mundo está em crise, vivendo aceleradas transformações, avanços e retrocessos. A vida está muito instável, o ser humano tem estado sob forte pressão em quase todos os lugares e isto se reflete na relação homem x mulher. Homens e mulheres estão sofrendo com o desencontro. Não é uma questão de culpa da mulher ou do homem. São comportamentos coletivos. No tema que abordo mais a fundo como um grande erro no amor – amar demais, muitas mulheres agem assim. O importante é que a mulher mais emocional, que se doa demais ao parceiro, que paralisa a vida em função do amor, repense suas condutas e estabeleça limites emocionais mínimos de reserva íntima, necessários para compartilhar o amor masculino sem grandes traumas e tragédias pessoais.

Diante disso, é mesmo real a preocupação das mulheres com o namoro?

Rejane – A mulher quer namorar, quer envolvimento, quer compromisso, quer de novo formar relações estáveis e duradouras, com a diferença de que agora não abre mão da participação ativa e decisória, de exercer o direito de escolha, da liberdade de ir e vir, de viver e construir o seu tempo. De estar na rua, de fazer negócios, de ter tempo dividido entre várias satisfações pessoais, não só com o homem por quem se interessa. A questão é que esse homem, ao tentar acompanhar as mudanças femininas, está tentando entender os seus papéis afetivos na relação amorosa e se transformando também. Um exemplo disto é que muitos homens estão preferindo fazer opção por viverem sozinhos, abrindo mão do compromisso amoroso, da convivência e das cobranças inerentes a um casal.

A eficácia de suas dicas se baseia em quê?

Rejane – O livro é um bate-papo informal, algo como trocar idéias, despertar questionamentos, exercitar o pensar sobre o amor, passar o filme de erros típicos de amar demais. As dicas são fruto da experiência e da observação com base em realidades vividas no meu universo conhecido. Não tem base científica; não são resultado de pesquisas. É só o dia-a-dia da vida, servem para levar a mulher a pensar, a refletir sua história de amor e ampliar o autoconhecimento. Porque quanto mais a mulher se conhecer afetivamente em relação ao homem, mais ela estará amadurecida para provar relações prazerosas, com grande retorno do seu investimento amoroso. Tenho recebido retorno de muitas leitoras que estão se identificando, se achando nas páginas do livro. Esta é a minha maior gratificação.

Jornal da Cidade de Jundiaí e Região. Caderno Domingo Especial
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Título:
Pare de Amar Errado
Categoria:
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