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Amor doentio

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Data de Publicação: 24 de março de 2009
00:42 - O ciúme que Heloísa tinha do marido, Sérgio, a fazia armar os maiores escândalos. O resumo da interpretação da personagem de Giulia Gam na novela “Mulheres Apaixonadas”, reprise em cartaz na Globo, retratou na ficção um drama real na vida de muitas mulheres brasileiras: quando o amar demais o outro é um problema. O comportamento não escolhe classe social ou idade. Da adolescente à empresária bem-sucedida que se casou há pouco, até senhoras que já são avós. São patricinhas, donas de casa, mães, descoladas, entretanto, todas com um único ponto negativo, a obsessão pelo ser amado. A característica comum a essas mulheres é a falta de amor-próprio, não no sentido popular, como sinônimo de “brio”, mas sim no sentido de baixa autoestima. “Quando uma mulher releva tudo que o outro faz, se submete a maus-tratos, humilhações e danos físicos, ela está demonstrando que não se tem em alta conta, que não se considera merecedora de ser bem tratada, de receber coisas boas, merecer um tratamento digno”, afirma a psicóloga Yara Monachesi, especialista em sexualidade humana.

Baseada nestas relações desequilibradas, a jornalista, atriz e escritora Marília Gabriela transportou depoimentos de 13 mulheres que enlouqueceram, literalmente, de amor, no seu livro “Eu que amo tanto”, pela Rocco. Por meio do grupo de apoio Mada (Mulheres que Amam Demais Anônimas) Marília colheu depoimentos e os escreveu em primeira pessoa. Não falou sobre os encontros do Mada e sim das experiências pessoais dessas mulheres. A obra, segundo a autora, relata histórias de mulheres que passaram do amor para a patologia no amor. “Lançadas ao fundo do poço por relacionamentos doentios, construídos em bases frágeis de autoestima e desespero diante da vida”. A carência afetiva e os conflitos mal-resolvidos na relação com os pais são apontados como algumas das prováveis causas para o comportamento. “Ela acaba jogando sobre o homem, e cobrando dele, toda a expectativa que carrega de finalmente ser feliz.

Ao invés de viver plenamente a felicidade como um processo de construção em que, aos poucos, vamos alcançando uma série de desejos e necessidades satisfeitas, a mulher que ama demais só sabe ser feliz se o homem/objeto do seu desejo a amar demais também”, afirma a jornalista Rejane Freitas, autora do livro “Pare de Amar Errado - Guia de Sobrevivência nos Relacionamentos”, pela Matrix. “Elas se despersonificam, perdem a própria personalidade e se projetam no homem por quem estão envolvidas. Elas se mudam para a vida do outro, a própria vida deixa de ter valor e passam a se realizar por meio do homem que amam. Então se estabelece uma profunda dependência emocional da parte delas.”

Essas mulheres se unem sequencialmente a vários parceiros que lhes infligem maus-tratos físicos, e não se dão conta que repetem um padrão de relacionamento, talvez em função de uma autodesvalorização ligada à própria condição feminina. As consequências dessas relações difíceis atingem várias pessoas, mas principalmente os familiares. “Filhos de casais que vivem dessa forma são expostos a altos níveis de estresse, ficando divididos entre afetos polarizados, desejando proteger os pais, mas ao mesmo tempo culpabilizando-os pelo que acontece”, revela a psicóloga Yara Monachesi. Há saída para essa situação, e ela consiste em que essas mulheres se apercebam do paradoxo em que constituiu-se sua existência. O grupo de apoio Mada (www.grupomada.com.br), o mesmo usado por Marília Gabriela para compor seu livro, é uma das opções.

Assim como o Alcoólatras Anônimos, o grupo possui 12 passos de recuperação, mas neste caso, a dependência é de relacionamentos destrutivos. Uma boa saída para essa obsessão é a cartilha do bom convívio social: fazer atividades sozinha, como academia e encontro com amigas da época do colégio. “O amor liberta, não aprisiona. Portanto, se está sendo refém de alguém, só consegue viver se aquela pessoa estiver ao seu lado, procure ajuda”, afirma a psicanalista e escritora Beth Valentim. Outros recursos são as psicoterapias, entretanto, tudo depende do desejo de mudança. “Isso podem auxiliar as mulheres a sairem dessa situação, embora muitas delas, ao perceberem que sua condição está atrelada a uma escolha, que não se trata de seu destino ou de um carma, têm dificuldade de enfrentar o conflito e a dor do afastamento - elas demonstram que o que desejam é que o parceiro mude, se transforme no homem gentil e amoroso com o qual seguem fantasiando, para não arcar com a responsabilidade de tomar nas mãos as rédeas de sua vida”, afirma Yara Monachesi. Quando essa mulher tira seu foco sobre o homem, os resultados são grandiosos e positivos. “Ela passa a entender que a vida é algo muito mais profundo e de um significado muito maior do que apenas a relação homem e mulher. Que há mais razões para estar viva e existir, não limitando o amor de Deus apenas ao amor por um homem”, afirma a escritora Rejane Freitas.

“Quem ama demais, ama sozinho” Os casos de violência doméstica são, geralmente, os que mais incomodam os familiares e amigos, por não compreenderem como a mulher suporta o agressor e ainda por cima demonstra amá-lo. Uma análise desses casos, segundo a psicoterapeuta Yara Monachesi, revela que a mulher, na maior parte das vezes, pode se afastar, pode sair do encarceramento dessa união, mas não o faz, ora argumentando que fica em favor dos filhos, ora porque o parceiro precisa dela, não tem para onde ir, raras vezes admitindo que ela tem por ele uma paixão do tipo obsessiva. “Neste sentido, cabe a pergunta: Mulheres que amam demais ou mulheres que se amam de menos?” Para mudar esse comportamento, a jornalista Rejane Freitas afirma que essa mulher deve iniciar um processo de autoavaliação. Ela deve começar a se ver fortalecida, com poder pessoal para fazer escolhas e definir o rumo da sua vida. Desenvolver um instinto de defesa própria, de segurança interior, de assumir a responsabilidade pelas decisões na vida e no relacionamento.

A mulher deve exercitar um grau de independência emocional e sentimento de desapego (dentro de limites saudáveis para que não caia no outro extremo, o egoísmo). Outra dica é desenvolver dentro de si a capacidade de sobreviver emocionalmente a um término de relação. Compreender quais são os seus papéis no mundo, buscar a sua identidade existencial, descobrir um dom, um talento, procurar quais são as suas missões humanitárias, em como pode contribuir com o universo e a humanidade. “Como eu digo no meu livro: amar demais é um erro, é um investimento desperdiçado, pois quem ama demais, ama sozinho. O amor que você deu demais, o homem não viu, não percebeu, não entendeu, não aproveitou, não sentiu, não recebeu”, revela Rejane.

Saiba Mais

O que fazer:
  • Avalie se a relação está sendo mais penosa do que prazerosa;
  • Exija que o parceiro se responsabilize por seus atos;
  • Não o provoque nem o agrida fisicamente;
  • Em caso de agressões físicas ou ameaças, registre queixa junto à Delegacia da Mulher;
  • Mantenha os filhos protegidos;
  • Busque auxílio psicológico;
  • Exija o tratamento psicológico ou psiquiátrico do parceiro;
  • Busque atividades que sirvam para aumentar a sua autoestima;
  • Faça alianças com pessoas que possam ajudá-la a mudar esta situação;
  • Em caso de agressão ou uso abusivo de drogas, não fique sozinha com o parceiro, procure a companhia de outras pessoas que possam ajudá-la.
  • O que não fazer:


  • Superproteger o parceiro;
  • Manter financeiramente hábitos como alcoolismo e drogas;
  • Pagar dívidas do parceiro;
  • Retirar queixas relativas a agressões físicas, ameaças etc.;
  • Envolver filhos na situação, seja física ou emocionalmente;
  • Buscar justificativas para o abuso do parceiro (para abuso não existe justificativa);
  • Esconder as marcas da violência;
  • Responsabilizar os filhos por suportar violência doméstica;
  • Tentar se defender usando armas;
  • Quando crianças são abusadas, lembre-se de recorrer aos cuidados do Conselho Tutelar da sua região.

  • Fonte: Yara Monachesi, psicoterapeuta.


Matéria publicada com autorização da Redação do jornal Diário de São José do Rio Preto.

Fonte: Diarioweb www.diarioweb.com.br
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Título:
Pare de Amar Errado
Categoria:
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